segunda-feira, 19 de junho de 2017

No Mapa da Corrupção, Brasília lidera prejuízos com quadrilhas


DF concentra 57,2% — R$ 70,9 bilhões — dos prejuízos apurados pela PF em 2.056 operações que investigaram organizações criminosas

Centro do poder nacional, o Distrito Federal é a unidade da Federação que concentra 57,2% — R$ 70,9 bilhões — dos prejuízos apurados pela Polícia Federal em 2.056 operações que investigaram organizações criminosas de 2013 a 2017. O mapa do que os especialistas chamam de máfias revela uma característica desse tipo de crime: a proximidade com o Estado.

“As organizações criminosas são sempre parasitárias. Essa, aliás, é uma definição do juiz italiano Giovanni Falcone”, afirmou o juiz aposentado e estudioso das organizações mafiosas Wálter Maierovitch. Falcone foi assassinado em 1992, em Palermo, na Sicília, pela máfia. “Cria-se um estado paralelo, que é aquele que gruda no Estado, atua ao seu lado. A Odebrecht, por exemplo, agia como uma organização parasitária.”

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Parte desse protagonismo do Distrito Federal se explica pelo fato de que entre os inquéritos de 82 operações feitas pela Superintendência Regional da PF, na capital federal, estão grandes casos como Greenfield (prejuízo de 53,8 bilhões), Acrônimo (R$ 5,8 bilhões), Zelotes (R$ 5,4 bilhões) e Janus (R$ 4,3 bilhões).

As operações apuram desvios de verbas públicas, crimes financeiros de órgãos públicos e delitos tributários ligados à corrupção de agentes públicos. O Brasil perdeu, em quatro anos, R$ 123 bilhões em razão da atuação das organizações criminosas.

Os investigados também têm relação com o DF. Incluem a elite da política que vive ou trabalha no Planalto Central, bem como os empresários que por lá circulam. É por isso que o corretor da bolsa Lúcio Funaro está preso em Brasília e o dono da JBS, Joesley Batista, também presta depoimentos lá.

Na lista de políticos, por sua vez, figuram o alto comando de partidos, como o senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG). Outros estão há anos causando polêmicas em Brasília e não é a primeira vez que têm o nome envolvido em ilícitos. É o caso do ex-ministro Geddel Vieira Lima, que estava no primeiro grande escândalo de corrupção do País após o fim da ditadura: os anões do Orçamento, em que, depois, foi absolvido.

Lava Jato

O Metrópoles mostrou, em reportagem publicada no último dia 10, o resultado de uma pesquisa que ratifica os dados da PF: 24,3% das Pessoas Expostas Politicamente (PEPs) citadas na Lava Jato têm atuação na capital federal, e o DF aparece na lista como líder disparado em relação às outras unidades da Federação.

Os dados fazem parte de um estudo da AML Consulting, empresa especializada em serviços de prevenção à lavagem de dinheiro. As Pessoas Expostas Politicamente são aquelas que ocupam ou já ocuparam cargos, empregos ou funções públicas de relevância, eleitos ou nomeados. Entram na lista, por exemplo, governadores, prefeitos, deputados, ministros, presidentes de empresas públicas, entre outros. Segundo o levantamento, das 916 PEPs citadas na Lava Jato, 223 são do DF.

Os investigados da Lava Jato no DF não se restringem só a figuras nacionais, chegando também a importantes personagens da política local. Há apenas três semanas, dois ex-governadores e um ex-vice-governador do Distrito Federal foram presos no âmbito da Operação Panatenaico, desdobramento da Lava Jato. José Roberto Arruda (PR), Agnelo Queiroz (PT) e Tadeu Filippelli (PMDB) ficaram oito dias detidos por conta de suspeitas de fraudes em grandes obras do GDF, como o Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha.

Além dos três, a lista de agentes públicos de Brasília atingidos pela operação conta com mais de uma dezena de nomes. Também foram presos, na ocasião, Maruska Lima e Nilson Martorelli – ex-presidentes da Terracap e da Novacap, respectivamente – e o ex-secretário da Copa do Mundo 2014, Cláudio Monteiro. A Polícia Federal deteve ainda o ex-secretário do GDF Afrânio Roberto de Souza Filho. Apesar de não ter sido alvo da operação, pois goza de foro privilegiado, o deputado federal Rogério Rosso (PSD-DF) teve seu nome mencionado na Panatenaico.

Em delações de executivos das empreiteiras Andrade Gutierrez e Odebrecht aparecem também figuras como os ex-secretários do GDF Márcio Machado e Hermano Carvalho, o ex-presidente da Terracap Abdon de Araújo, o deputado distrital Robério Negreiros (PSDB) e o ex-deputado federal Geraldo Magela (PT).
Agnelo Queiroz: ex-governador do DF. O petista executou a obra de construção do Mané Garrincha Denio Simões/GDF
Nelson Tadeu Filippelli: ex-vice-governador do DF é acusado de receber R$ 1 milhão de propina GDF/Divulgação
Segundo delator da Andrade Gutierrez, um interlocutor do deputado Rogério Rosso pediu R$ 12 milhões de propina referente ao Mané Garrincha. Executivo da empreiteira disse que a empresa negou a cobrança e acabou repassando "apenas" R$ 500 mil ao então governador-tampão do DF em 2010
Maruska Lima: ex-presidente da Terracap durante o governo Agnelo é acusada de receber R$ 500 mil em propinaLula Marques/Secretaria da Copa
Nilson Martorelli, ex-presidente da Novacap, foi alvo da delação de Rodrigo Leite como um dos beneficiados de propina paga durante os aditamentos contratuais da reforma do estádio. Durante Operação da PF na casa dele, foi encontrada uma “grande quantidade de dinheiro suspeito” dentro de um cofre. A cifra é de R$ 268.147,54 Reprodução/Internet

Fernando Queiroz, dono da Via Engenharia, é suspeito de fraudar a licitação para a construção do estádio Mané Garrincha em troca de pagamento de propina aos ex-governadores Agnelo Queiroz e José Roberto 

José Roberto Arruda: ex-governador do DF é apontado em investigações como o mentor de “toda a fraude licitatória e dos crimes daí derivados ao articular a saída de outras construtoras do certame e ao apontar/determinar desde logo os vencedores” Internet/Reprodução

Paraná em segundo

A Superintendência do Paraná é a segunda que mais detectou prejuízos causados por organizações criminosas no País — graças à Lava Jato e ao combate do crime na fronteira com o Paraguai. Foram R$ 19,4 bilhões, dos quais R$ 13,8 bilhões nas diversas fases da Lava Jato, e R$ 4,5 bilhões ligados ao contrabando de mercadorias alvo da Operação Celeno.

O terceiro lugar no ranking é reservado ao Rio Grande do Sul por causa de duas operações: a Enredados (R$ 5,1 bilhões) e a Huno (R$ 2 bilhões). Em suas duas fases em 2015 e 2016, a Enredados investigou esquema de propinas no extinto Ministério da Pesca, no governo Dilma Rousseff, e de funcionários do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Ao todo, 90 acusados foram indiciados pelos federais sob a acusação de corrupção e crimes ambientais — 27 eram funcionários públicos. A Operação Huno investigou o mercado clandestino de cigarros.

São Paulo ocupa apenas o quarto lugar neste ranking, com R$ 3,9 bilhões. Muitos dos estados com menor quantidade de prejuízos estão em regiões de fronteira, como Acre, Rondônia e Mato Grosso do Sul. Outro dado surpreendente é o pequeno papel da criminalidade comum nos dados da PF. Ali, o tráfico de drogas seria responsável por danos de apenas R$ 76 milhões, enquanto que os ladrões de banco, que usam explosivos e armas de fogo, teriam causado um prejuízo de R$ 125 milhões aos cofres públicos

Segundo o sociólogo Guaracy Mingardi, especialista em criminalidade organizada, haveria uma razão para justificar a disparidade: “É muito mais fácil trabalhar casos que envolvem empresários e políticos do que os que envolvem traficantes”.

Bloqueios e apreensões

A PF calculou ainda qual o tamanho do prejuízo evitado pelas operações em cada unidade da Federação. Mais uma vez, o Distrito Federal lidera, com R$ 45,2 bilhões, dos quais R$ 20 bilhões em apenas uma ação: a Operação Quatro Mãos, que apurou um esquema de propina denunciado pelo Banco Itaú no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf). O segundo maior prejuízo evitado por uma operação foi na Acrônimo (R$ 12 bilhões).

Também em Brasília, estão os mais altos valores apreendidos e sequestrados — R$ 11 bilhões só durante a Operação Greenfield. Nessa lista, a Lava Jato ficou em 2º lugar, com a recuperação de R$ 5,1 bilhões. (Metropoles, com informações da Agência Estado)

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